Atibaia: entre céus e vales, a expectativa da morte vinda do próximo e do mais próximo.
Atibaia: entre céus e vales, a expectativa da
morte vinda do próximo e do mais próximo.
Sergio
Luiz de Souza Vieira
Dias de sol e muito calor...
Um silêncio como nunca visto em domingos ou
feriados...
Estamos a contemplar a paz e a natureza
exuberante, entre os vales de Atibaia, SP, iluminados por um radiante sol sobre
um céu azul anil...
E as noites... Ah... Noites quentes,
romanticamente enluaradas, em que eu e minha esposa, ambos com 62 anos, casados
fazem 42 anos, ficamos a trocar conversas calmamente sobre nossas vidas, sempre
muito bem compartilhadas...
Mas um espectro muito sinistro paira ao redor
deste silêncio... Tem um nome de chuveiro: corona, mas foi classificado como
covid-19 pelas autoridades em saúde... Este é nome de nosso algoz...
E nos dizem que estamos num tal de grupo de
risco... O grupo em vias de ser riscado... Riscado da vida, sem nem direito a
um velório... Isso porque também temos hipertensão, pré diabetes e no meu caso,
um histórico de duas pneumonias e a perda de um rim por câncer.
Contra este risco da vida, acabamos nos submetendo
às determinações das autoridades de saúde, sempre contrariadas por outras
autoridades de saúde, num festival de contradições entre cientistas, médicos,
sanitaristas, toxicologias, infectologistas, achologistas e similares, que só trouxeram
a certeza, de que não há
certeza alguma...
E a imprensa... Ah... A imprensa... As verdadeiras
agências de notícias dos profetas do apocalipse... Estas inescrupulosamente se aproveitaram
da situação para lucrar com seus espetáculos midiáticos, pois aquilo que
deveria ser o show da vida, se transformou no show da morte, claramente
politizado, pensando em 2022 ao invés de 2020. Mas quanto a estas mensageiras
do Cavalo Amarelo, nós resolvemos muito mais rápido do que os efeitos do covid-19,
nós as riscamos de nossas vidas para vivermos em paz.
Vez por outra, aumentamos o nosso risco, pois
temos que ir à farmácia, no mercado e num tal de pet shop, nome bonito para o
local em que podemos comprar rações para os animais: cães, gatos, galinhas,
perus, patos, peixes e aves silvestres.
E aí... Ah... E aí... A maioria das lojas da
cidade fechadas, também com o medo do risco, muito embora seus negócios sejam
igualmente riscados... Nas ruas e comércios autorizados pelas tais das
autoridades, pessoas silenciosamente apavoradas... Medo de se esbarrarem...
Medo de se contaminarem... Medo de morrerem... E vamos em duplas aos locais, eu
e minha esposa...
Ah... Não mencionei que estamos juntos desde os
12 anos de idade... Pois é... 50 anos de convivência... Ela me conheceu quando
eu ainda usava calças curtas... Então... seguindo as orientações das tais
autoridades, vamos juntos no carro, na alegria e na tristeza, na saúde e na
doença, mas sozinhos no comércio, para não sermos contaminados pelos próximos,
que são na realidade, os possíveis invasores de corpos, que é outro filme
interessante para esta época... E assim, ao voltarmos para o veículo, a
salvação não vem de cruzes, alhos ou da água benta, mas do ritual do álcool
gel, nas mãos e nos antebraços, para não riscarmos da vida o próximo mais
próximo...
Antes, as preocupações com a preservação da
vida eram as simples, do cotidiano... Assaltos, agressões, atropelamentos,
infartos, acidentes vasculares cerebrais e a morte lenta a cada dia, por
doenças crônicas ou degenerativas... Mas tudo isso, de repente, não mais que de
repente, aquele espectro dominou a todos, pois no próximo encontramos a
possibilidade da finitude de nossas vidas... Até parece que estamos vivendo
dentro de um daqueles filmes de zumbis, de mortos vivos, de comedores de
cérebros, pois encontramos no próximo a possibilidade da morte...
E aí nos deparamos com o fato do planeta estar
parado... E ficamos a imaginar o que se passa em cada lar, em cada família,
pois por causa da pandemia, dizem que também precisamos ficar separados de
nossos três filhos e quatro netos, pois estes próximos mais próximos, poderão
ser os nossos piores riscos de morte... E quantos já não foram riscados da vida
pelo amor e pelo afeto... Triste sina...
E é claro, não pudemos nos separar das redes
sociais, pois são os nossos únicos meios de contatos com os apavorados parentes
e amigos. Assim, neste festival de milhares de mensagens, orações, preces,
peregrinações virtuais, passes espirituais, vídeos de religiosos, juntaram-se
mensagens raivosas contra políticos e almanaques, vídeos com piadas, e outras
milhares de súplicas.
O que vejo em tudo isso?... Vejo a humanidade
tentando vencer a seleção natural, na qual milhões precisarão ser riscados para
que bilhões sobrevivam mais fortes e adaptados... Tentando desesperadamente
fazer uma seleção artificial, em que os equipamentos, os medicamentos e as
medicinas, conseguirão salvar alguns, ainda que venham a perder muitos... E
nisso me vem as célebres palavras do astrônomo Carl Sagan: “Quem nos salvará de
nós mesmos?”. Eis a questão...
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